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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Banzo

Banzo
Luciano Palm
          Quando os negros africanos eram arrancados de suas pátrias, do convívio de suas famílias e comunidades para serem submetidos a escravidão na América, eram acometidos por uma profunda melancolia (que levava inclusive alguns deles à morte) a que denominavam "banzo". O banzo era então um estado de desistência da vida, a mais completa ausência de sentido e de motivação para viver, era uma melancolia marcada pelo mais profundo sentimento de não pertencimento.
          Pertencimento... Eis um termo que pode ser interpretado sob as mais variadas perspectivas. Podemos falar em pertencimento legal ou jurídico, quando compartilhamos dos direitos e deveres de um determinado Estado. De pertencimento cultural, quando nos vemos representados nas expressões artísticas, literárias, poéticas e musicais de um povo. Pertencimento familiar, comunal e tantas outras formas de pertencimento. Contudo, de todas as perspectivas possíveis, a mais fundamental e vital forma de pertencimento, certamente, consiste no pertencimento existencial. Exatamente aquele que fora perdido pelos negros escravos, fazendo-os mergulhar no "banzo", nesta melancolia mórbida. Mas e o que dizer daqueles que, mesmo estando em seu lugar de origem, ainda assim, sentem-se estranhos, avessos a tudo o que se passa a sua volta. Estes estarão inevitavelmente condenados a viver como fugitivos, fugirão deste e daquele lugar sem talvez jamais perceberem que é de si mesmos que fogem, por medo, tédio, estranhamento ou qualquer outro motivo qualquer.
          Por ouro lado, como nascemos dentro de um contexto específico, família, país, sociedade, cultura, etc., acreditamos ser esta a única possibilidade de existir. Mas o quê realmente nos prende a nossa condição atual? A nossa atual situação? Sim, poderíamos nos esforçar e elencar vários motivos e justificativas para responder a tais questões. Porém, se conseguirmos ser suficientemente sinceros e radicais, indo bem fundo na reflexão, poderíamos responder em uma palavra: Ilusão. Sim, o que nos faz reféns de nossas condições atuais é fundamentalmente "ilusão", e uma boa dose de preguiça e comodismo também, não podemos negar. Mais especificamente o que nos prende a nossas atuais condições são, em geral e sobretudo, ilusões de controle (ilusão de segurança, ilusão de pertencimento, ilusão de previsibilidade, ilusão de sanidade, etc.). Todas estas ilusões acabam por tecer um verdadeiro véu de Maia sob o qual conseguimos suportar e viver a mediocridade de nossas vidas.
          Grandes e profundas mudanças sempre são possíveis, grandes aventuras sempre são bem-vindas. É verdade que grandes mudanças e aventuras podem aumentar significativa- e potencialmente a dor e o sofrimento, dos quais a mediocridade da mesmice talvez nos pouparia. No entanto, jamais haverá o prazer da vitória de se alcançar e conquistar a outra margem sem o risco e as penas da travessia.

P.S.: Para encerrar eu gostaria de citar uma estrofe de uma música de Dante Ramon Ledesma. Cito esta estrofe não porque seja temente a deus ou coisa parecida, mas porque o seu significado corresponde e expressa um pouco a inquietação que motivou este escrito.
"Eu só peço a deus, que a vida não me seja indiferente, que a morte não me surprienda, me levando sem ter feito o que devia".
Dante Ramon Ledesma

Um comentário:

  1. Aqueles que, mesmo estando em seu lugar de origem, ainda assim, sentem-se estranhos, sao acometidos pela inquietaçao da finitude.Sim,estão inevitavelmente condenados a viver como fugitivos, fugirão deste e daquele lugar porque conscientes de sua finitude querem sempre mais, se sentem desconfortaveis na mediocridade.Ao estar conscientes da finitude percebem que é de si mesmos que fogem, mas nessa fuga é que realmente vivem tal como acham certo viver, nao deixando de fazer o que devem. Se forem questionados sobre o que fizeram de sua vida, certamente, saberao orgulhosamente responder.

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